No episódio 23 do Põe na Bancada, apresentado por Roberto Sobrinho, a saúde pública de Rondônia vai para o centro da mesa. Em um debate direto e ancorado em dados, o programa reuniu Dr. Luiz Maiorquim (presidente do Sindicato dos Médicos), Marli Mendonça (presidenta do Conselho Estadual de Saúde) e Josué Sicsu (presidente do Conselho Regional de Enfermagem) para discutir greves recentes, a expansão de modelos terceirizados, orçamentos comprimidos e os impactos concretos para quem depende do SUS — a maioria da população do estado. O episódio conecta decisões de política pública a efeitos sociais imediatos, revisita a trajetória de promessas de hospitais que não saem do papel e questiona a sustentabilidade de soluções de curto prazo.

Greve e terceirização: sintomas de uma mesma enfermidade

Os convidados descrevem um quadro recorrente: déficit de concursos, condições precárias de trabalho e opção crescente por terceirizações. Para o Dr. Maiorquim, a troca de gente e de gestão no coração do sistema — a emergência do João Paulo II — não fecha a conta:

“Se eu tenho os melhores profissionais do estado trabalhando no João Paulo II, naquela estrutura difícil e mesmo assim entregando resultado, qual é a motivação do governo para tirá-los dali e colocar uma empresa para tocar o serviço?”

Ele vincula a greve à frustração com negociações salariais e de carreira:

“Ficamos quatro meses trabalhando num PCCR proposto pelo próprio governo. Aceitamos. Na hora da resposta, não foram à reunião.”

Do lado da enfermagem, Sicsu associa a paralisação a salários defasados e equipes subdimensionadas:

“Tem um enfermeiro e oito técnicos para 80 a 100 pacientes. A população não entende e culpabiliza quem está no plantão.”

“Hoje pagam R$ 4,5 mil ao enfermeiro concursado, enquanto um contrato terceirizado abre espaço para R$ 10 mil a R$ 12 mil. Para onde vai a diferença?”

Marli, que representa os usuários no Conselho, alerta para o efeito social da retórica anti-servidor:

“Para representar o usuário, eu também preciso lutar pelo trabalhador. Equipe desvalorizada significa pior atendimento ao cidadão.”

“O SUS é público. A Constituição é clara: complementaridade privada não é sinônimo de substituição da gestão estatal.”

Orçamento, gestão e “modernizações” sem lastro

Os três convergem em um ponto: orçamento é política pública. Segundo Maiorquim, Rondônia opera próximo ao piso constitucional, enquanto vizinhos investem mais:

“Amazonas tem cerca de 20-21% e Acre acima de 18% da receita em saúde. Rondônia bate 11% em novembro e corre para empenhar no fim do ano.”

A equação piora quando se soma a comparação de custos entre gestão direta e contratos privados:

“O mesmo governo que paga R$ 800 por 12 horas de plantão extra a um servidor paga R$ 2.600 à empresa pelo mesmo plantão.”

“Temos cerca de 600 médicos concursados com piso de R$ 12 mil (40h) e mais de 600 em contratos precários. Sem concurso, o SUS fica sem base.”

No Conselho, a restrição orçamentária travou execução de metas:

“A secretaria tem só 50% do necessário para executar o Plano Anual de Saúde”, diz Marli.

“Saúde mental é um exemplo: demanda explode, mas acesso é restrito.”

Sicsu acrescenta o custo humano dessa equação:

“A saúde mental dos profissionais está em colapso; perdemos colegas. Ainda assim, pedimos respeito a quem labuta dia e noite.”

Efeitos na ponta: filas, deslocamentos e decisões sem escala

O episódio questiona a lógica de deslocar pacientes para cirurgias em cidades com baixa taxa de ocupação — como Guajará-Mirim — em vez de estruturar a rede onde a demanda é maior:

“Quando a oferta não casa com a porta, a cirurgia pode virar a mais cara do Brasil”, avalia Maiorquim.

“É desumano levar paciente operado para longas viagens”, reforça Marli, lembrando que o SUS preconiza regionalização e atendimento próximo de casa.

As filas têm um componente de processo que poderia ser enfrentado com gestão:

“O paciente faz os exames, mas entra em outra fila para retorno ao especialista — pessoas morrem no caminho”, diz Marli.

O caminho, segundo ela, passa por protocolos de linha de cuidado (da entrada à alta) e por programas que fechem o ciclo (“Mais Especialidades”).

Caminhos: concurso, gestão e foco no cidadão

Apesar do diagnóstico duro, o episódio lista saídas imediatas:

– Concurso público para repor e ampliar força de trabalho, reduzindo vínculos emergenciais.

– Gestão integrada e transparente, com compras previsíveis e escala para reduzir custos.

– Orçamento compatível com o tamanho do problema — e com o crescimento do estado.

Sicsu resume a urgência:

“O gargalo é recursos humanos. A solução, concurso já.”

Marli completa:

“Gestão é gargalo e solução. Linha de cuidado e protocolos evitam que o sistema perca o paciente.”

Maiorquim aponta a direção política:

“É preciso sensibilidade do governo para aportar recursos e valorizar servidores. O resultado aparece na ponta.”

Encerramento

Com 90% da população dependente do SUS, segundo citado no debate, a escolha entre remendos e política pública consistente tem impacto direto no cotidiano do rondoniense. O Põe na Bancada, sob a mediação de Roberto Sobrinho, encerra o episódio indicando um horizonte: concursos, gestão, orçamento e respeito ao caráter público do SUS — condições para devolver dignidade a trabalhadores e acesso ao cidadão.

– YouTube: Assista ao episódio no YouTube: https://youtu.be/UBGuxMmg2TE

– Exibição na TV:

  • RedeTV (RO): sábado, 19h30

Portal SGC

Participação.

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